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03
Set 12

 

 

Era esta o título de uma das obras de Odette de Saint-Maurice, dedicada às férias da família Macedo!

Como já disse em tempos, aqui, esta escritora marcou uma época, pelos valores que transmitiu na sua literatura juvenil, a uma geração de adolescentes a viver os anos dourados da década de 60...

Bons tempos os meus!

Agora e quando chega o mês de Setembro...vem-me sempre este título à mente...

Já o disse várias vezes...é o meu mês preferido...

O brilho do sol deixa de ser tão intenso, começa a nostalgia das primeiras folhas a cair - o que não é lá muito agradável para quem tem jardins - as cores começam a harmonizar-se em tons dourados para nos dar um dos espectáculos mais deslumbrantes que conheço, as madrugadas arrefecem e na hora mágica do entardecer o convite é para recolher ao aconchego do lar.

E voltam sempre as boas recordações das férias da minha meninice...

Setembro era "aquele" mês ...o mais desejado! Porquê? Porque em Julho e Agosto, nós, os jovens andávamos meio separados dos amigos, por força das férias da família na praia...ia-se para a Figueira, Mira, Costa Nova, Nazaré, S.Pedro de Moel, enfim...

Depois regressava-se ao aconchego do lar,  bem como aos amigos de sempre...mais aos que viviam em Lisboa e também vinham juntar-se a nós naquele mês, poisando em casa dos avós ou dos primos!  

As aulas começavam só em Outubro e aqueles dias aproveitavam-se bem a saborear a vida ainda despreocupada.

Talvez houvesse algumas tarefas escolares para preparar o ano lectivo, mas havia muito tempo para passeios de bicicleta, piqueniques, ler...ler...ler..., namorar e dançar ao som de pilhas de discos de vinil...lembram-se quando o disco riscava?...

E, lá pelo dia de São Mateus, chegadas as vindimas, toca a ajudar...não tanto pelo amor à tarefa - que deixava as mãos peganhentas de mosto -  mas pela alegria dos dias! E quem não gostava de dar uma volta no carro dos bois?

Ainda sinto o cheiro das maçãs vermelhinhas e dos peros bravo-esmolfe! As nossas vinhas tinham muitas árvores de fruto e nesses tempos a fruta cheirava tão bem!... Hoje...as nossas crianças não têm a felicidade de saber o que isso é...

Ainda há Setembro, mas os tempos são outros..

Melhores ou piores?

...cabe a cada um de nós vivê-los felizes!

publicado por Belisa Vaio às 19:58

Escrevi há meses atrás no Intercambiando sobre o  Maracatu, que é uma manifestação da cultura popular brasileira, mais propriamente do Nordeste. Ontem fazendo um trabalho sobre o assunto para a faculdade, encontrei um texto bastante interessante e poético, escrito provavelmente nos anos 40 por Mario Sette ( 1886/1950), um escritor Pernambucano.

Reproduzo o texto aqui, que foi extraído de seu livro " Maxombas e Maracatus", com as fotos cedidas por um amigo italiano que esteve este ano em Nazaré da Mata (PE) e registrou estes momentos. Notem que entre o texto e as fotos passaram-se aproximadamente 60 anos, mas parecem foram feitos um para o outro.

 

“Eram típicos no carnaval de antigamente. típicos, numerosos, importantes, suntuosos. No meio do vozerio da mascarada, dominando as marchas dos cordões, ouvia-se ainda longe o rumor constante, uniforme, monótono dos atabaques:

Bum…bum…bum…bum…
Bum…bum…bum…bum…

 

 

 

                       

Era um maracatu. Havia os que gostavam dele e esperavam-no com curiosidade. Havia os que protestavam contra a revivescência africana e resmungavam.

Bum…bum…bum…bum…

No fim da rua, por cima do povo, surgia o grande chapéu de sol vermelho, rodando, oscilando, curvando-se.

 

 

E o batuque cada vez mais perto, mais perto. Dali a pouco desfilava o cortejo real dos negros.

 

 

 

Vinha o rico estandarte com cores vivas e bordados a ouro.

 

 

Seguiam-se as alas de mulheres ostentando turbantes, saias bem rodadas, corpetes enfeitados de vidrilhos. Traziam fetiches religiosos nas mãos.

 

 

 

Depois o Rei e a Rainha, em trajes majestosos, debaixo da ampla umbela de seda encarnada com franjas douradas. Empunhavam os cetros, vestiam longos mantos, e tinham cabeças coroadas.

 

 

Na retaguarda do préstito, os atabaques, as marimbas, os congás, os pandeiros, as buzinas… As canções que todos entoavam eram ordinariamente nostálgicas, como uma ancestral saudade da terra de berço, ficada tão distante. Costumavam também cantar assim:

 

 

Bravos, Ioio! Maracatu Já chegou.
Bravos, Iaia! Maracatu vai passar.

 

Uma das mulheres empunhava uma grande boneca de pano toda engalanada de fitas, e repetia numa toada dolente:

 

A boneca é de seda…
A boneca é de seda…

 

 

 

Os maracatus paravam em frente às casas dos protetores e ali dançavam durante alguns minutos. Antigamente licenciavam-se dezenas deles e apresentavam-se com verdadeiro luxo. Nas sedes havia demoradas festas, com danças e batuques, a que assistiam os soberanos sob um dossel de veludo

 

 

Todos os negros da costa, tão comuns no Recife de ontem, aqueles mesmos que se reuniam , também, religiosamente, na Igreja do Rosário, lá se achavam para tomar parte no toques. O maracatu hoje escasseia e já não tem mais o esplendor de antes. Em menino eu tinha medo dos maracatus.

 

 

Medo e como uma espécie de piedade intraduzível. Aqueles passos de dança, aqueles trajes esquisitos, aqueles cantos dolentes, me davam uma agonia…Eu me encolhia todo, juntando-me à saia de chita de minha mãe preta, com receio talvez de que os negros do maracatu a levassem também. E eu não sabia ainda ser o maracatu uma saudade…Hoje é que a compreendo, que a sinto, recordando os maracatus de minha infância e de minha terra, vendo os carnavais de outras cidades e de outra época… Parece-me perceber ainda o batuque longínquo, cada vez mais remoto, cada vez mais indeciso, quando, na alta noite da terça-feira, no silêncio e na tristeza do Carnaval acabado, o derradeiro maracatu se recolhia à sede…

Bum…bum…bum…bum…
Bum…bum…bum…bum…

E lá se ia, como se foi, o meu maracatu de menino…”

 

 Texto extraído do blog http://maracatu.org.br/o-maracatu/breve-historia/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Bete do Intercambiando às 18:36

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