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21
Out 10

Assim, como Sofia, ( do livro A escolha de Sofia de William Styrone), que teve que escolher qual de seus 2 filhos pretendia deixar assassinar, Marina Silva, canditada derrotada em primeiro turno nas eleições presidenciais brasileiras, mas com expressiva votação, também ela, se viu num dilema:- Qual dos candidatos apoiar, uma vez que seu apoio seria decisivo para qualquer das partes....A sua escolha não poderia se limitar  a  preferências partidárias, mas, e principalmente,  teria que ser baseada em compromisso com suas ideologias.....Assim como eu, milhões de brasileiros, num primeiro momento, se decepcionaram com sua decisão!....Mas, lendo na íntegra sua carta aos candidatos, se pode compreendê-la!....

É uma carta bastante longa, mas importante a leitura àqueles que querem compreender a política brasileira! 

 

 

 

Carta Aberta aos Candidatos à Presidência da República

 

Prezada Dilma Roussef,

Prezado José Serra,

 

Agradeço, inicialmente, a deferência com que ambos me honraram

ao manifestar interesse em minha colaboração e a atenção que

dispensaram às propostas e ideias contidas na “Agenda para um

Brasil Justo e Sustentável” que nós, do Partido Verde, lhes enviamos

neste segundo turno das eleições presidenciais de 2010.

Embora seus comentários à Agenda mostrem afinidades importantes

com nosso programa, gostaríamos que avançassem em clareza e

aprofundamento no que diz respeito aos compromissos. Na verdade,

entendemos que somos o veículo para um diálogo de ambos com os

eleitores a respeito desses temas. Nesse sentido, mantemo-nos na

posição de mediadores, dispostos a continuar colaborando para que

esse processo alcance os melhores resultados.

Aos contatos que tivemos e aos documentos que compartilhamos,

acrescento esta reflexão, que traz a mesma intenção inicial de minha

candidatura: debater o futuro do Brasil.

Quero afirmar que o fato de não ter optado por um alinhamento neste

momento não significa neutralidade em relação aos rumos da

campanha. Creio mesmo que uma posição de independência,

reafirmando ideias e propostas, é a melhor forma de contribuir com o

povo brasileiro.

Já disse algumas vezes que me sinto muito feliz por, aos 52 anos,

estar na posição de mantenedora de utopias, como os brasileiros que

inspiraram minha juventude com valores políticos, humanos, sociais e

espirituais. Hoje vejo que utopias não são o horizonte do impossível,

mas o impulso que nos dá rumo, a visão que temos, no presente, do

que será real e terreno conquistado no futuro.

É com esse compromisso da maturidade pessoal e política e com a

tranquilidade dada pelo apreço e respeito que tenho por ambos que

ouso lhes dirigir estas palavras.

Quando olhamos retrospectivamente a história republicana do Brasil,

vemos que ela é marcada pelo signo da dualidade, expressa sempre

pela redução da disputa política ao confronto de duas forças

determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.

Republicanos X monarquistas, UDN X PSD, MDB X Arena e, agora,

PT X PSDB.

Há que se perguntar por que PT e PSDB estão nessa lista. É uma

ironia da História: dois partidos nascidos para afirmar a diversidade

da sociedade brasileira, para quebrar a dualidade existente à época

de suas formações, se deixaram capturar pela lógica do embate entre

si até as últimas consequências.

Ambos, ao rejeitarem o mosaico indistinto representado pelo guardachuva

do MDB, enriqueceram o universo político brasileiro criando

alternativas democráticas fortes e referendadas por belas histórias

pessoais e coletivas de lutas políticas e de ética pública.

Agora, o mergulho desses partidos no pragmatismo da antiga lógica

empobrece o horizonte da inadiável mudança política que o país

reclama. A agressividade de seu confronto pelo poder sufoca a

construção de uma cultura política de paz e o debate de projetos

capazes de reconhecer e absorver com naturalidade as diferentes

visões, conquistas e contribuições dos diferentes segmentos da

sociedade, em nome do bem-comum.

A permanência dessa dualidade destrutiva é característica de um

sistema politico que não percebe a gravidade de seu descolamento

da sociedade. E que, imerso no seu atraso, não consegue dialogar

com novos temas, novas preocupações, novas soluções, novos

desafios, novas demandas, especialmente por participação política.

Paradoxalmente, PT e PSDB, duas forças que nasceram inovadoras

e ainda guardam a marca de origem na qualidade de seus quadros,

são hoje os fiadores desse conservadorismo renitente que coloniza a

política e sacrifica qualquer utopia em nome do pragmatismo sem

limites.

Esse pragmatismo, que cada um usa como arma, é também a

armadilha em que ambos caem e para a qual levam o país. Arma-se

o eterno embate das realizações factuais, da guerra de números e

estatísticas, da reivindicação exclusivista de autoria quase sempre

sustentada em interpretações reducionistas da história.

Na armadilha, prende-se a sociedade brasileira, constrangida a ser

apenas torcida quando deveria ser protagonista, a optar por pacotes

políticos prontos que pregam a mútua aniquilação.

Entendo, porém, que o primeiro turno de 2010 trouxe uma reação

clara a esse estado de coisas, um sinal de seu esgotamento. A

votação expressiva no projeto representado por minha candidatura e

de Guilherme Leal sinaliza, sem dúvida, o desejo de um fazer político

diferente.

Se soubermos aproveitá-la com humildade e sabedoria, a realização

do segundo turno, tendo havido um terceiro concorrente com quase

20 milhões de votos, pode contribuir decisivamente para quebrar a

dualidade histórica que tanto tem limitado os avanços políticos em

nosso país.

Esta etapa eleitoral cria uma oportunidade de inflexão para todos,

inclusive ou principalmente para vocês que estão diante da chance

de, na Presidência da República, liderar o verdadeiro nascimento

republicano do Brasil.

Durante o primeiro turno, quando me perguntavam sobre como iria

compor o governo e ter sustentação no Congresso Nacional, sempre

dizia que, em bases programáticas, iria governar com os melhores de

cada partido. Peço que vejam na votação concedida à candidatura do

PV algo que ultrapassa meu nome e que não se deixem levar por

análises ligeiras.

Esses votos não são uma soma indistinta de pendores setoriais. Eles

configuram, no seu conjunto, um recado político relevante. Entendoos

como expressão de um desejo enraizado no povo brasileiro de

sair do enquadramento fatalista que lhe reservaram e escolher outros

valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional.

E quem tentou desqualificar principalmente o voto evangélico que me

foi dado, não entendeu que aqueles com quem compartilho os

valores da fé cristã evangélica, vão além da identidade espiritual.

Sabem que votaram numa proposta fundada na diversidade, com

valores capazes de respeitar os diferentes credos, quem crê e quem

não crê. E perceberam que procurei respeitar a fé que professo, sem

fazer dela uma arma eleitoral.

Os exemplos de cristãos como Martin Luther King e Nelson Mandela

e do hindu Mahatma Ghandi mostram que é possível fazer política

universal com base em valores religiosos. São inspiração para o

mundo. Não há porque discriminar ou estigmatizar convicções

religiosas ou a ausência delas quando, mesmo diferentes, nos

encontramos na vontade comum de enfrentar as distorções que

pervertem o espaço da política. Entre elas, a apropriação material e

imaterial indevida daquilo que é público, seja por meio de corrupção

ou do apego ao poder e a privilégios; a má utilização de recursos e

de instrumentos do Estado; e o boicote ao novo.

Assim, ao contrário de leituras reducionistas, o apoio que recebi dos

mais diversos setores da sociedade revela uma diferença

fundamental entre optar e escolher. Na opção entre duas coisas précolocadas

e excludentes, o cidadão vota “contra” um lado, antes

mesmo de ser a favor de outro. Na escolha, dá-se o contrário: o voto

se constrói na história, na ampliação da cidadania, na geração de

novas alternativas em uma sociedade cada vez mais complexa.

A escolha, agora, estende-se a vocês. É a atitude de vocês, mais que

o resultado das urnas, que pode demarcar uma evolução na prática

política no Brasil. Podemos permanecer no espaço sombrio da

disputa do poder pelo poder ou abrir caminho para a política

sustentável que será imprescindível para encarar o grande desafio

deste século, que é global e nacional.

Não há mais como se esconder, fechar os olhos ou dar respostas

tímidas, insuficientes ou isoladas às crises que convergem para a

necessidade de adaptar o mundo à realidade inexorável ditada pelas

mudanças climáticas. Não estamos apenas diante de fenômenos da

natureza.

O mega fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da

humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande

desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por

meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência,

mas por um salto civilizatório, de valores.

Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou a

incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É

necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento,

parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do

que apenas o acesso crescente a bens materiais.

O novo milênio que se inicia exige mais solidariedade, justiça dentro

de cada sociedade e entre os países, menos desperdício e menos

egoísmo. Exige novas formas de explorar os recursos naturais, sem

esgotá-los ou poluí-los. Exige revisão de padrões de produção e um

fortíssimo investimento em tecnologia, ciência e educação.

É esse, em síntese, o sentido do que chamamos de Desenvolvimento

Sustentável e que muitos, por desconhecimento ou má-fé, insistem

em classificar como mera tentativa de agregar mais alguns cuidados

ambientais ao mesmo paradigma vigente, predador de gente e

natureza.

É esse mesmo Desenvolvimento Sustentável que não existirá se não

estiver na cabeça e no coração dos dirigentes políticos, para que

possa se expressar no eixo constitutivo da força vital de governo.

Que para ganhar corpo e escala precisa estar entranhado em

coragem e determinação de estadista. Que será apenas discurso

contraditório se reduzido a ações fragmentadas logo anuladas por

outras insustentáveis, emanadas do mesmo governo.

E, finalmente, é esse o Desenvolvimento Sustentável cujos objetivos

não se sustentarão se não estiver alicerçado na superação da

inaceitável, desumana e antiética desigualdade social. Esta é ainda a

marca mais resistente da história brasileira em todos os tempos, em

que pesem os inegáveis avanços econômicos dos últimos 16 anos,

que nos levaram à estabilidade econômica, e das recentes

conquistas sociais que tiraram da linha da pobreza mais de 24

milhões de pessoas e elevaram à classe média cerca de 30 milhões

de pessoas.

A sociedade, em sua sábia intuição, está entendendo cada vez mais

a dimensão da mudança e o compromisso generoso que ela implica,

com o país, com a humanidade e com a vida no Planeta. Os votos

que me foram dados podem não refletir essa consciência como

formulação conceitual, mas estou certa de que refletem o sentimento

de superação de um modelo. E revelam também a convicção de que

o grande nó está na política porque é nela que se decide a vida

coletiva, se traçam os horizontes, se consolidam valores ou a falta

deles.

Essa perspectiva não foi inventada por uma campanha presidencial.

Os votos que a consagram estão sendo gestados ao longo dos

últimos 30 anos no Brasil, desde que a luta pela reconquista da

democracia juntou-se à defesa do meio ambiente e da qualidade de

vida nas cidades, no campo e na floresta.

Parte importante da nossa população atualizou seus desafios,

desejos e perspectivas no século 21. Mas ainda tem que empreender

um esforço enorme e muitas vezes desanimador para ser ouvida por

um sistema político arcaico, eleitoreiro, baseado em acordos de

cúpula, castrador da energia social que é tão vital para o país quanto

todas as energias de que precisamos para o nosso desenvolvimento

material.

Estou certa de que estamos no momento ao qual se aplica a frase

atribuída a Victor Hugo: “Nada é mais forte do que uma idéia cujo

tempo chegou”.

O segundo turno é uma nova chance para todos. Para candidatos e

coligações comprometerem-se com propostas e programas que

possam sair das urnas legitimados por um vigoroso pacto social entre

eleitos e eleitores. Para os cidadãos, que podem pensar mais uma

vez e tornar seu voto a expressão de uma exigência maior, de que a

manutenção de conquistas alie-se à correção de erros e ao preparo

para os novos desafios.

Mesmo sem concorrer, estamos no segundo turno com nosso

programa, que reflete as questões aqui colocadas. Esta é a nossa

contribuição para que o processo eleitoral transcenda os velhos

costumes e acene para a sustentabilidade política que almejamos.

Como disse, ousei trazer a vocês essas reflexões, mas não como

formalidade ou encenação política nesta hora tão especial na vida do

pais. Foi porque acredito que há terreno fértil para levarmos adiante

este diálogo. Sei disso pela relação que mantive com ambos ao longo

de nossa trajetória política.

De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua

solidariedade quando, no Senado, precisei de apoio para aprovar

uma inédita linha de crédito para os extrativistas da Amazônia e para

De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua

solidariedade quando, no Senado, precisei de apoio para aprovar

uma inédita linha de crédito para os extrativistas da Amazônia e para

criar subsídio para a borracha nativa. Serra dispôs-se a ele mesmo

defender em plenário a proposta porque havia o risco de ser

rejeitada, caso eu a defendesse.

Com Dilma Roussef, tenho mais de cinco anos de convivência no

governo do presidente Lula. E, para além das diferenças que

marcaram nossa convivência no governo, essas diferenças não

impediram de sua parte uma atitude respeitosa e disposição para a

parceria, como aconteceu na elaboração do novo modelo do setor

elétrico, na questão do licenciamento ambiental para petróleo e gás e

em outras ações conjuntas.

Estou me dirigindo a duas pessoas dignas, com origem no que há de

melhor na história política do país, desde a generosidade e

desprendimento da luta contra a ditadura na juventude, até a

efetividade dos governos de que participaram e participam para levar

o país a avanços importantes nas duas últimas décadas.

Por isso me atrevo, seja quem for a assumir a Presidência da

República, a chamá-los a liderar o país para além de suas razões

pessoais e projetos partidários, trocando o embate por um debate

fraterno em nome do Brasil. Sem esconder as divergências, vocês

podem transformá-las no conteúdo do diálogo, ao compartilhar idéias

e propostas, instaurando na prática uma nova cultura política.

Peço-lhes que reconheçam o dano que a política atrasada impõe ao

país e o risco que traz de retrocessos ainda maiores. Principalmente

para os avanços econômicos e sociais, que a sociedade brasileira,

com justa razão, aprendeu a valorizar e preservar.

Espero que retenham de minha participação na campanha a

importância do engajamento dos jovens, adolescentes e crianças,

que lhes ofereçam espaço de crescimento e participação. Que

acreditem na capacidade dos cidadãos e cidadãs em desejar o novo

e mostrar essa vontade por meio do seu voto. Que reconheçam na

sociedade brasileira uma sociedade adulta, o que pressupõe que

cada eleitor escolha o melhor para si e para o país e o expresse, de

forma madura, livre e responsável, sem que seu voto seja

considerado propriedade de partidos ou de políticos. Pois, como

repeti inúmeras vezes no primeiro turno, o voto não era meu, nem da

Dilma, nem do Serra. O voto é e sempre será do eleitor e de sua

inalienável liberdade democrática.

Esta é minha contribuição, ao lado das diretrizes de programa de

governo que são um retrato do amadurecimento de quase 30 anos de

construção do socioambientalistmo no Brasil. Espero que a acolham

como ela é dada, com sinceridade. A utopia, mais que sinal de

ingenuidade, é mostra de maturidade de um povo cujo olhar eleva-se

acima do chão imediato e anseia por líderes capazes de fazer o

mesmo.

Que Deus continue guiando nossos caminhos e abençoando nossa

rica e generosa nação.

Marina

publicado por Bete do Intercambiando às 02:39

Bom dia Bete!
Como lhe agradeço ter-nos dado a conhecer a vossa realidade política. Como essa Senhora põe, generosamente, o dedo em tantas feridas, que não são só do Brasil, mas de Portugal e do Mundo inteiro!!.
Acredito que os dois candidatos vão interiorizar a mensagem e o Povo Brasileiro, cada vez mais consciente, também lhes irá exigir mais entrega e honestidade.
Quem dera que também tivéssemos uma leader com esse Saber! Sim, porque se Portugal e o Mundo fossem governados por Mulheres desse gabarito estaria, concerteza, melhor.
Ela é o Obama do Brasil! Um abracinho!
Belisa Vaio a 21 de Outubro de 2010 às 10:36

Muitas pessoas deixaram comentários duros a ela, em seu site oficial www.minhamarina.org.br , num primeiro momento tb fiquei muito desapontada, mas, depois refleti, e conclui, que ela não tinha outra solução, pois as 2 opções a levariam em contradição a muitas ideologias suas.
Um Abraço, amiga

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